Cidades

Bares e restaurantes privatizam vias públicas em Maceió

Comércio irregular avança sobre calçadas e ruas e restringe o direito de ir e vir

Por Wellington Santos - reportagem e fotos / Tribuna Independente 25/07/2026 08h08 - Atualizado em 25/07/2026 08h42
Bares e restaurantes privatizam vias públicas em Maceió
Estaiada Choperia & Drinkeria, na Ponta Verde, coloca mesas e cadeiras em parte da via pública - Foto: Wellington Santos

O espaço público, que deveria ser um princípio básico de convivência urbana e cidadania, tem sido ostensivamente ignorado em diversos bairros com a apropriação indevida e a privatização velada total ou de parte de vias públicas por bares, restaurantes e estabelecimentos comerciais e isso virou uma prática em série em Maceió.

Esse balcão de negócios em algumas ruas de Maceió tem tirado o direito de ir e vir nas ruas da capital alagoana de pedestres e motoristas e se virou moda.

A Tribuna flagrou, durante esta semana, casos típicos desse abuso. Calçadas, ruas, acostamentos e até faixas de rolamento de pistas de trânsito estão sendo gradativamente fatiadas, cercados e transformados em extensões privadas desses estabelecimentos.

À revelia de licença do poder público, como apurou a Tribuna, mesas e cadeiras e até toldos têm se apropriado do espaço público, dificultando a passagem de veículos e pedestres, que, muitas vezes, têm que fazer malabarismos para poder passar nas vias ou, ainda, nem poder transitar nelas, o que é mais grave.

Bar Confraria do Rei tem usado parte da via dificultando passagem de carros e pedestres


“São mesas, cadeiras e cercados que invadem a calçada e o leito dessa rua e nós pedestres somos expostos ao perigo real. Idosos, crianças, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida são sumariamente empurrados para o meio dos carros, arriscando nossa integridade física para conseguir atravessar aqui”, disse uma moradora da Avenida Brasil que preferiu não se identificar, onde funciona um antigo restaurante e bar que tem ocupado parte da via pública para acomodar seus clientes, em prejuízo de pedestres e motoristas que fazem uso da Avenida Brasil.

“Não sei a razão de o pessoal do DMTT não ter fiscalizado isso ainda. Passo aqui todo fim de semana e esse bar está sempre com essa prática de ocupar parte da rua, obrigando a gente a passar bem devagar”, endossou o motorista de aplicativo José Azevedo. “Tenho certeza de que fosse aplicada uma multa séria, eles não fariam mais isso”, completou Azevedo.

Restaurante Boteco do Tonho tem fechado totalmente uma das via dupla da região


Bem próximo a esse local, outro estabelecimento na Rua Senador Rui Palmeira, no bairro nobre de Ponta Verde, também aderiu à moda de ocupar a via pública, sem qualquer sinal do poder público de fiscalizar. São mesas e cadeiras expostos em parte da via à disposição dos clientes do estabelecimento, também no fim de semana.

Ainda na parte baixa de Maceió, no bairro do Prado, um badalado boteco que fica à Rua Manoel Lourenço, no bairro de Ponta Grossa, está privatizando não só uma parte da via, mas toda ela. Uma das vias da mão dupla é simplesmente fechada à passagem de veículos no fim de semana para atender à clientela e ao lucro do proprietário.

Prática de privatizar ruas virou moda na capital alagoana por parte de bares


Parte alta também aderiu à moda de privatizar ruas

Mas a moda de privatizar parte das vias públicas não é só privilégio dos estabelecimentos da parte baixa da cidade. A parte alta também aderiu à moda da ocupação das vias públicas.

Nos conjuntos Graciliano Ramos e Acauã, há registros de bares que extrapolam os limites de seus estabelecimentos e transformam ruas e avenidas em extensão do atendimento.

A ocupação reduz o espaço destinado ao tráfego de veículos e à circulação de pedestres, gerando reclamações de moradores da região.

Um dos denunciantes afirma que o problema se intensificou durante a Copa do Mundo deste ano e cobra maior atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização.

"Durante a Copa do Mundo deste ano foi nítida a situação. Agora imagine se um motorista embriagado, sem habilitação ou que passe mal ao volante perder o controle e atingir quem está nessas mesas. O resultado pode ser muito pior. Parece que estão esperando acontecer uma tragédia, com mortos e feridos, para reforçar a fiscalização", criticou.

Estabelecimentos não têm licença para fechar ruas

A Tribuna procurou a Prefeitura de Maceió, através dos órgãos responsáveis por estas demandas do espaço público e do trânsito, para saber se esses estabelecimentos receberam alguma autorização ou licença para fechar parte ou a totalidade das vias públicas. Os dois órgãos procurados pela reportagem foram o Departamento Municipal de Transporte e Trânsito (DMTT) e a Secretaria Municipal de Segurança Cidadã (Semsc) que, em Nota, informou:

“A ocupação de espaços públicos por bares e restaurantes deve observar a legislação municipal e as normas vigentes, não sendo permitida a utilização de vias públicas de forma a comprometer a circulação de pedestres e veículos.

Sempre que houver indícios de ocupação irregular do espaço público, a população pode registrar uma denúncia junto à Ouvidoria da Semsc, através dos contatos:[email protected], 3312 - 5277 e 3312-5289.

Após o recebimento da denúncia, uma equipe de fiscalização da Semsc realiza vistoria no local. Caso seja constatada irregularidade, o responsável é notificado para promover a adequação às normas. Persistindo o descumprimento, poderão ser adotadas as medidas administrativas cabíveis, conforme a legislação”.

Já a assessoria de comunicação do DMTT informou que até o momento não havia recebido nenhuma reclamação de motoristas, pedestres ou moradores desses bairros ou ruas citados.